Daniel Graciola, diretor comercial da Mentores by Belago.Foto: Divulgação
Na era do excesso de dados e da escassez de clareza, empresas coletam mais informações do que nunca e são desafiadas a transformá-las em decisões. Afinal, de que adianta ter milhares de relatórios se eles não conduzem à ação?
De acordo com o relatório State of AI+BI Analytics Global 2025, elaborado pela Dúnedain Research, 43% das organizações globais já incorporaram IA (inteligência artificial) para auxiliar na análise de informações. Além disso, aproximadamente um terço dessas empresas está ampliando a aplicação dessas tecnologias para diversos departamentos.
Contudo, a adoção isolada de ferramentas não garante resultados. Para se ter uma ideia, um estudo da Beanalytic, que ouviu mais de 130 líderes de tecnologia de diferentes setores, mostra que 78% das empresas ainda falham em converter suas informações em decisões.
A pesquisa avaliou seis dimensões: infraestrutura, qualidade da informação, ferramentas de análise, governança, cultura organizacional e estratégia. Como resultado, apenas 22% das companhias analisadas alcançam patamares considerados "Competitivo" ou "Maduro" em maturidade analítica.
Ou seja, diante de tantas informações mal organizadas, executivos podem hesitar nas decisões e, enquanto isso, pedirem mais análises, relatórios e números. Assim, caem novamente no ciclo que os impede de agir.
A importância dos dashboards nas análises de dados
Em resumo, os dashboards são painéis organizados visualmente para traduzir a complexidade das informações brutas, com interface intuitiva e simples. Eles funcionam como uma curadoria inteligente de informação: entende o contexto de negócio, identifica os indicadores mais importantes para cada nível da organização e os apresenta de forma hierarquizada, contextualizada e, acima de tudo, acionável.
Hoje, o maior desafio nos projetos de dashboard é o excesso de dados e a falta de contexto, já que as empresas coletam volumes imensos de informação, mas nem sempre sabem o que realmente é relevante para cada decisão. Então, o papel do design é justamente transformar complexidade em clareza.
Isso acontece quando criamos uma hierarquia visual que conduz o olhar, destacando o que importa e reduzindo o ruído. Um bom dashboard não mostra tudo, ele mostra o que precisa ser visto no momento certo, e isso é resultado direto de uma abordagem de UX orientada à tomada de decisão, não à estética.
A diferença fundamental entre dados e inteligência está na interpretação. Ou seja, números isolados, por mais precisos que sejam, não revelam nada. Já um dashboard bem construído transforma dados em uma narrativa clara e convincente sobre o estado do negócio. Com ele, colaboradores em todos os níveis podem tomar decisões informadas dentro de suas áreas, o que acelera a operação e distribui a capacidade de resposta para todos.
O papel do UX/UI design nos dashboards
Um dashboard tecnicamente robusto, conectado às melhores fontes e atualizado em tempo real, mas com má hierarquia visual, cores confusas ou navegação complexa, é tão inútil quanto não ter dashboard algum. Na verdade, pode ser pior, pois consome recursos e gera frustração.
Assim, UX e UI caminham juntos na construção dos dashboards. O design de experiência do usuário (UX) determina como as pessoas interagem com a informação. Entende fluxos de trabalho, padrões mentais, expectativas e necessidades específicas de cada perfil de usuário, por exemplo. Já o design de interface (UI) materializa essas decisões em elementos visuais que facilitam a compreensão e reduzem a carga cognitiva.
Nesse sentido, o ideal é trabalhar com três pilares principais: clareza, contexto e consistência. A clareza vem de priorizar a informação essencial e eliminar distrações visuais. O contexto é o que permite que o dado conte uma história, cada número precisa ter um 'porque' e um 'para quê'. E a consistência garante que o usuário não precise reaprender a navegar a cada tela.
Embora esses princípios pareçam simples, sua aplicação rigorosa faz toda a diferença na entrega de um dashboard.
Do mesmo modo, elementos como personalização por perfil de usuário, responsividade para diferentes dispositivos, atualização em tempo real e interatividade deixaram de ser diferenciais para se tornarem padrões esperados. Porém, o verdadeiro valor está em como esses recursos técnicos são conduzidos através do design para criar uma experiência coesa.
A questão da hierarquia visual merece destaque especial. Em um mundo ideal, um dashboard deveria funcionar como um jornal bem editado: as manchetes (informações mais críticas) chamam atenção imediatamente, enquanto detalhes complementares estão acessíveis, mas não competem pela atenção.
O erro mais comum que observo em tentativas internas de criar dashboards é confundir visualização com comunicação. Muitas vezes, os dashboards são sobrecarregados de gráficos, cores e métricas irrelevantes, o que gera confusão e leva a decisões baseadas em interpretações erradas. Outro erro é ignorar o contexto do usuário: quem vai usar aquele dashboard, com que frequência e para quê.
As consequências dessas falhas podem impactar muito os negócios. O custo disso é alto: perda de tempo, desalinhamento estratégico e, em última instância, decisões ruins. Portanto, um dashboard mal projetado é uma fábrica de ruído. E o ruído, em gestão, sai caro.
O que esperar do futuro?
Para o futuro, acredito que estamos caminhando para dashboards cada vez mais inteligentes e adaptativos, que não apenas exibem dados, mas sugerem interpretações e ações possíveis. A integração entre UX e IA vai permitir que as interfaces entendam o contexto do usuário e priorizem informações automaticamente.
Destaco ainda uma tendência que promete revolucionar a forma como interagimos com informações: as narrativas visuais. Nela, dashboards contam histórias e mudam conforme o ciclo de uso, substituindo o modelo estático por uma experiência dinâmica e conversacional. Assim, em vez de olhar para os dados, passaremos a dialogar com eles.
* Por Daniel Graciola, diretor comercial da Mentores by Belago.